|
O PEQUENO OBJETO
A reflexão sobre as grandezas orienta os caminhos percorridos por essa
mostra dedicada a exibir trabalhos em reduzidíssima escala. A dimensão
exígua dos trabalhos carrega consigo
pletoras de possibilidades interpretativas sobre o que é pequeno e reduzido,
abre um leque de interpretações que vai do enquadramento lírico em
abordagens sobre a história privada do artista, até abordagens políticas que
posicionam o pequeno dentro do espaço público e como elemento excluído da
esfera econômica e social.
O pequeno objeto repudia a escala autoritária da visualidade contemporânea
comprometida com os meios de comunicação de massas do cenário urbano. Indo
no sentido contrário ao da urgência vigorante, o pequeno objeto exige do
espectador paciência, silêncio e recolhimento, a busca cuidadosa de todos os
elementos ou manobras que o constitui, para que então se deixe ver
plenamente.
Pode-se pensar no pequeno a partir da chave filosófica de Bachelard que
coloca a miniatura como uma morada do mundo onde “as imagens surgem em
grande quantidade fazendo o grande sair do pequeno”. Esse mundo
miniaturizado abriga miríades de valores afetivos guardados secretamente;
agrega reminiscências que o torna uma extensão da infância e recupera os
sentimentos carregados de familiaridade. O pequeno objeto aqui adquire a
conotação do diminutivo na fala popular, onde uma expressão como “paizinho”
é recheada de sentido carinhoso. O pequeno objeto restitui ao olhar a
delicadeza e a proximidade, é um murmúrio sutil, uma mensagem nas
entrelinhas.
De outra forma, o pequeno quando posicionado no contexto político adquire
significação crítica contundente. Um outro uso do diminutivo na fala popular
revela um sentido pejorativo. Na expressão “negrinho” a significação passa a
depreciação do negro, é uma manobra que visa enfraquecer, humilhar, abaixar
seu papel enquanto cidadão e pessoa. No Brasil o jogo das grandezas é
gerenciado por um processo histórico de concentração de renda e de maus
tratos a cidadania tem apequenado a maioria da população, excluindo-a do
acesso aos bens de consumo, conhecimento e tecnologia.
O pequeno objeto inserido no cenário da arte contemporânea critica o atual
dimensionamento dos elementos que compõem o circuito artístico, a
distribuição de poderes entre os agentes de produção, circulação,
institucionalização e mercado. Ironiza o escalonamento das forças
tensionadas por curadores, críticos e galeristas, cujo resultado tem
reduzido a autoridade do artista perante sua própria obra e o cenário
cultural.
Nano é um comentário sobre a absorção microscópica da arte no tecido social
e questiona a mínima intervenção da arte no quadro das mudanças do
comportamento coletivo, é uma reação a minúscula inserção do artista na
sociedade contemporânea.
Divino Sobral
Goiânia, 2005
|