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Fake
Acho que ninguém mais pensa a sério em conceitos como verdade, pureza,
início. Daí a curiosidade com uma exposição chamada Fake, do Grupo DOC, na
Galeria 90. Se existe um fake, é porque existe alguma coisa que não seja.
Fake Fake Fake
Já o papelzinho de apresentação mostra que não é por aí. De Nietzsche a
Baudrillard, passando pelo Aurélio com suas definições de pastiche, plágio,
mimese, paródia etc., o texto deixa claro que o fake apresentado reivindica
adequadamente o título de verdadeiro, o verdadeiro hoje só podendo ser o
fake assumido.
Resta um aspecto que tem mais a ver com o vocabulário literário do que com o
das artes visuais e que é o da metáfora.
A metáfora traz uma questão de complementaridade, seja como paralelismo ou
oposição, entre os campos diegético e extradiegético.
(Agravada aqui pela virtualidade de um e outro: a exposição é de fotos,
vídeos.)
O caso é que o Fake do Grupo DOC tem o fake e seu abismo de espelhos, e tem
também um desejo de referência, ainda que metafórica, já que referência
“toute courte” é uma impossibilidade filosófica. Há um universo, se não
verdadeiro, puro ou inicial, pelo menos posto em paralelo - e
incessantemente reabsorvido. E isso dá uma impressão de unidade composta por
diferenças - que é a própria definição do que seja uma metáfora.
Assim é nas notas de dinheiro com ídolos pop, na cabeça romana feita de
espuma, ou no irônico vídeo sobre história da arte.
Mas metáforas e outras construções de linguagem se completam na cabeça de
quem as vê/lê. E, para isso, é preciso supor uma cultura uniformizada,
comum, que compartilhe valores e símbolos, o que é mais uma dificuldade em
época de pulverização de tribos, de agudo ressurgimento de grupos.
Existe um outro tipo de conceituação de construções artísticas, sem
referentes ou metáforas. É o orgânico. Nasceu no período romântico do Século
XIX mas o exemplo mais citado é o de James Joyce. O artista partiria de um
núcleo - fragmento de memória ou experiência - que incha e cresce segundo
critérios estéticos, como o som das palavras ou a textura da tinta. O
defeito dessa teoria é a idéia de que há um conteúdo inicial sem forma (o
fragmento de memória) que conquistará sua forma à medida que se afaste desse
conteúdo inicial. Uma tautologia das boas, ausente, que bom, dessa
exposição.
Então, recapitulando: o fake é fake assumido, em um mundo sem referências,
onde também não há organicidades fechadas em suas peles; esse fake usa a
metáfora como um simulacro de exterioridade, sendo que metáforas,
infelizmente, também são uma construção e, pior, sujeitas a um
compartilhamento cultural cada vez mais raro. O humor - porque tudo isso é
feito com humor - se dá no nanossegundo em que você percebe isso.
E aí, que remédio, só rindo.
O que prova a eficácia do grupo.
Elvira Vigna*
Novembro / 2006
(*) Extraído do site http://aguarras.com.br/
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