|
FAKE
"O mundo de verdade foi abolido. Que mundo nos restou?" - Nietzsche
O talento brasileiro muitas vezes se define pela habilidade de driblar
as regras do sistema. No futebol, o jogador astuto passa, dribla, chuta a
bola por entre as pernas do adversário rumo ao gol. Na política, sente-se o
desengano de contas fraudadas, funcionários-fantasma e testemunhos falsos
diante de flagrante corrupção. Na beleza, os seios siliconados das jovens
mulheres criam uma sociedade de cyborgs (a)palpavelmente reais.
O verbo "to fake it" em inglês significa simular um chute, um passe, enganar
para vencer. Como uma partida de futebol, a seqüência de passos falsos
feitos com a bola, que carrega toda a verdade do jogo, cumpre o seu desejo
do gol - o resultado verdadeiro, real e palpável dos falseamentos exercidos
dentro de um campo de potencialidades real. Em meio a estas forças
antagônicas - a prática do falso e o desejo do real e verdadeiro - surge uma
atitude de enfrentamento dos jovens artistas à ordem estabelecida e ao
cansaço da replicação de gêneros já sedimentados.
Já foi dito que a arte contemporânea, a arte da segunda metade do século XX,
é uma arte do simulacro. No entanto, ela parece hoje ultrapassar o simulacro
ao questionar um modelo de verdade que parece afirmar o falso, onde o
artista passa a ser um falsário, um charlatão, um mensageiro da verdade
velada. Em Nietzsche, a abolição de um “mundo-verdade” e o fim do sistema de
julgamento nos deixa a sós com uma relação entre forças. O mundo passa a ser
visto por dentro, sem mediações, nem essência nem aparências - o fim do
dualismo platônico entre o modelo ideal e a cópia degenerada, e além disso,
saber distinguir as boas das más cópias, os bons dos maus pretendentes, o
puro do impuro.
Ao levantar esta potência do falso, os artistas aqui expostos oferecem
leituras diferentes de uma consciência da imagem que deixa de ser meramente
simulacro ou cópia ou plágio. O que se deve atestar a partir dessas
investigações é aceitar que não há mais verdade a referenciar ou mimetizar.
Sendo assim, cada artista cria o seu próprio campo de relações poéticas sem,
contudo, alienar-se da realidade. Ao contrário, se antes a arte julgava-se
alheia ao restante das atividades culturais e mercantis, hoje ela se
dissimula em meio a todo o resto.
Hoje, a hibridez na arte é real, e a pureza, falsa, utópica, ilusória,
enganosa. Estes artistas do "fake" transformam o falso, o irreal e o
construído em verdade-potência, uma verdade que, como no Édipo Rei, termina
por nos cegar. Cabe a nós, como Nietzsche propõe, distinguir o bom modelo da
má cópia (ou vice-versa) ou chegar à conclusão de que tudo o que ocorre não
precisa de uma dialética ou ponto referencial: o "fake" simplesmente é.
Nino Tavares*
Outubro de 2006
Coimbra, Portugal
(*) Nino Tavares(1958), crítico de arte e
curador, é Professor Adjunto no Centro de Artes e Mídias da Universidade de Coimbra,
Portugal. Mestre em História da Arte, Semiótica e Lingüística no European
Graduate School, está atualmente concluindo o doutorado em Novas Mídias na
Universidad de Los Andes, Colômbia. Tavares é o autor de vários textos
críticos de vanguarda sobre arte contemporânea na América Latina. Suas
publicações incluem, entre outros, história e teoria da imagem contemporânea
e intervenções urbanas da imagem na América Latina.
|